talismã

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Sempre tive a curiosidade de entender o sobrenatural.

Tudo o que se refere a magia, encantamento, bruxaria, realmente me seduzia. Já li sobre duendes, gnomos, fadas, bruxas, sereias, salamandras, ondinas e nereidas. Achava o misticismo muito interessante e divertido.

Esoterismo era um “prato feito” para mim. Já possuía um “sexto sentido” para o assunto. Se se tratasse de encantamento, amuletos; o que tivesse uma conotação obscura, sombria, me atraía.

Tenho tal conhecimento dessas coisas que sou capaz de discorrer sobre o tema por horas a fio.

Embora lesse a respeito, sempre fui meio incrédulo. Lia por ler. Procurava por procurar. Fazia-o talvez porque fosse um bom pretexto para iniciar um diálogo interessante, já que nunca me interessei por motivos mais corriqueiros como futebol, carnaval, novela, mesmo sendo carioca.

Há catorze anos tudo mudou de figura quando vivenciei um fato insólito. Minha vida tomou outro rumo com o ocorrido. Como se diz popularmente, “quem procura acha”, acabei encontrando o que procurava.

Fui passar uns dias no sítio de um amigo em Correias, Petrópolis, no Rio de Janeiro. Estava de férias e queria descansar um pouco longe do burburinho da cidade. Meu trabalho era extenuante e estava à beira de uma estafa mental.

Nos primeiros dias já podia sentir a melhora considerável do meu estado geral. Dormia bem, respirava melhor, até meu apetite havia voltado. O clima era mais saudável por ser de uma região montanhosa, sem a poluição da cidade. Estava “curtindo” tanto o passeio que já pensava até em comprar um pedaço de terra por lá. Os afazeres inocentes como cuidar da horta, dar milho às galinhas, estavam me seduzindo. Passei uns dias naquela rotina sem compromisso.

Na semana seguinte à minha chegada resolvi dar um passeio à noite. Serenava e o ar estava puro, com um cheirinho de mato muito agradável. O céu, tão mais estrelado, comum nessas regiões, sem a interferência da iluminação artificial, convidava para uma caminhada a pé.

Chamei os amigos para me acompanhar, mas preferiram ficar não me lembro bem por quê. Saí caminhando bem devagar, olhando mais para o céu do que para o chão, como se fosse dono do mundo, sem responsabilidade alguma, despreocupado. O silêncio pesava. Só ouvia o coaxar das rãs e o cricrilar dos grilos além de meus próprios passos.

Subitamente alguma coisa me chamou a atenção. Tive a impressão de que algo brandamente luminoso se movia por trás de uma moita. Instantaneamente pulei para trás numa atitude reflexa e apurei bem a visão. Fiquei estatelado. Não conseguia imaginar o que seria “aquilo” que eu via.

De forma humana, mas com dois palmos de altura, de cores levemente reluzentes, exalando um aroma muito agradável, notei que olhava para mim com o semblante terno e piedoso. Eu estava paralisado. Não sabia o que fazer, se corria, se ficava, mas aquele serzinho tão meigo foi me acalmando com sua pouca reação e sem se aproximar. Acho que sabia que se fizesse o menor movimento para frente eu “cairia duro” ali mesmo.

Aos poucos fui perdendo o medo, embora estivesse um pouco trêmulo e provavelmente pálido como algodão. Já perdera a noção do tempo que estava a fitar aquele ser que me amedrontava e fascinava ao mesmo tempo. Sem pestanejar, eu não desviava o olhar. Dava-me a impressão de ser meio translúcido. Estava escuro naquele local.

Sem que me desse conta, ele se dirigiu suavemente em minha direção e me estendeu a mão esquerda fechada dizendo qualquer coisa que eu não percebia bem. Falava baixo. Aproximei-me já sem medo para ouvir melhor quando, ao mesmo tempo em que abria a mão para me entregar alguma coisa, sussurrou: – “quando te sentires estranho, consulta minha pedra, se ela mudar de cor, sai de onde estiveres, mas nunca permitas que alguém a veja ou já não estarei nela”. Entregou-me um pequeno objeto semelhante a uma semente de amêndoa transparente, violácea, como uma pedra semipreciosa. Sorrindo ternamente, como todo o tempo, fez um pequeno gesto de agradecimento ao “muito obrigado” – que eu não disse – e foi desaparecendo lentamente sob meu olhar incrédulo.

Fiquei ali ainda por alguns instantes a sentir o perfume que ele deixara no ar e fui para casa sem saber quanto tempo havia se passado. Enquanto retornava, tentava voltar ao meu estado normal para que não notassem qualquer mudança em meu comportamento.

O resto da semana passou ligeiro e logo regressamos à terrível vida civilizada. Adotei o hábito de trazer sempre no bolso o amuleto que recebi de presente. Não me esquecia dele quando trocava de roupa. Sempre com o cuidado de não deixar que fosse visto como me havia sido recomendado. Mesmo um pouco cético, seguia as instruções. Não me era muito difícil porque morava sozinho. Estava separado fazia dois anos e quase ninguém me visitava.

Um ano se passou desde aquele meu encontro singular quando um novo acontecimento mexeu com minhas entranhas.

Clinicava num ambulatório na Tijuca, no Rio, e certa vez ao chegar para trabalhar fiquei indisposto. Sentia uma leve náusea, desconforto abdominal, estava meio irritadiço, sem motivação para atender. Levei algum tempo matutando o que poderia ser aquele mal-estar. Não me passava pela cabeça olhar meu místico presente. Iniciei as atividades. Na segunda consulta, tive um lampejo de memória e rapidamente vasculhei os bolsos da calça à procura da pedra. Quando a vi fiquei assustado. Ela havia mudado de cor. Agora era de um verde-esmeralda muito vivo. Voltei no tempo em um átimo. Era como estar vendo meu amigo anãozinho a me dizer: – “quando te sentires estranho, consulta minha pedra, se ela mudar de cor, sai de onde estiveres.”

Imediatamente, sem questionar minha conduta, abandonei o paciente e saí da clínica. Era como se estivesse hipnotizado. Fui ao estacionamento, peguei o carro e fui para casa sem querer pensar no que diriam os diretores no dia seguinte.

Tomei um banho ao chegar com a intenção de dormir um pouco. Comi alguma coisa enquanto me vestia e me preparava para deitar quando tocou o telefone. Era o diretor da clínica. Estava com a voz agitada e me pedia para ir até lá. Imaginei que seria para me dispensar. Perguntei do que se tratava e ele contou que um balão de oxigênio havia explodido ferindo um paciente e dois colegas apresentavam queimaduras sérias. Ele precisava de minha ajuda naquela emergência. Apressei-me em ir. Cheguei meia hora depois e procedemos às condutas cabíveis ao caso.

Na ida não parava de remoer o que meu pequeno amigo havia me dito. Seria verdade? Ou teria sido apenas coincidência? Sem querer me sentir ingrato, procurava não pensar muito a respeito.

Terminada a tarefa voltei para o apartamento, agora já sem aquela indisposição que apresentava antes. Sentia-me bem, leve, como se tivesse dormido uma boa noite de sono.

Depois desse acontecimento minha vida mudou bastante. Sempre que percebia alguma coisa errada comigo consultava meu amuleto e por duas vezes aconteceu o mesmo que experimentara na clínica. A pedra mudava de cor me avisando de um perigo iminente. Aos poucos fui me tornando uma pessoa mais segura, desde que recebi aquela ajuda. Minha confiança aumentava com o tempo. Sabia que tinha essa proteção.

Durante anos a carreguei comigo até que, um dia, ao retornar do trabalho encontro minha namorada, que já tinha uma cópia da minha chave de casa, com um sorriso maroto nos lábios. Ela me fitou com aquele olhos sedutores que toda namorada tem e falou com uma voz artificialmente sensual:

– Posso te pedir uma coisa?

– Claro, meu amor, diga!

– Posso fazer um cordão com essa pedra aqui?

O chão fugiu sob meus pés. Eu tinha esquecido meu talismã no bolso da outra calça que vestira na véspera. Parecia o fim do mundo para mim. A menina chegou a ficar assustada:

– O que foi, amor, fiz alguma coisa errada?

Devo ter me transfigurado.

Por alguns instantes tive a impressão de que iria perder aquele “poder”, mas logo fui percebendo que eu não era mais o mesmo desde aquelas férias. Havia me tornado uma pessoa mais confiante, mais calma, mais motivada para o trabalho e que talvez já não precisasse mais de ajuda. Concordei em dar-lhe a pedra, o que me rendeu um abraço pendurada no pescoço e uma infinidade de beijinhos no rosto.

Hoje ainda me lembro do fato e tenho vontade de voltar lá, porém os compromissos me impedem de fazê-lo. Seria bom passar mais alguns dias no sítio do meu amigo, já que o meu nunca cheguei a comprar.  Voltar àquele lugar talvez seja uma boa idéia, se minha mulher e meus filhos não discordarem, é claro!

3 Respostas to “talismã”

  1. victor freeland Says:

    Pois é, amigo, “há mais coisas entre o Céu e a Terra do que…”. Nós somos muito pequenos para imaginar o que nos espera de grandioso… Beijo fraterno, Victor Freeland.

  2. Adenilton Says:

    Excelente texto, como tantos outros teus, és um artista bem versátil (fotógrafo, músico e escritor), tudo de bom para você!

  3. É incrível! Precisamos estar atentos.
    Bj.

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