solidão

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Tenho me perguntado por que prezamos tanto o “estar junto a alguém”. Por que tememos tanto a solidão, se temos consciência de que nascemos sós e morremos sós?

Não é estranho?

Partindo dessa premissa, tudo é circunstancial. Nossos pais, filhos, irmãos, colegas, amigos, trabalho, estudos, bens materiais, tudo é para ser devolvido depois de usado, como um livro que pegamos emprestado na biblioteca – uma vez adquirido o conhecimento, de volta às prateleiras!

Nada trazemos quando chegamos e nada levamos quando partimos. Sabemos que somos sozinhos. Ninguém tem dúvida de que essa é nossa condição inicial e final.

Não pretendendo ser repetitivo, por que não gostamos da solidão? Por que ela nos aflige tanto? Que temores nos assombram na presença dela, melhor dizendo, na ausência de nossos semelhantes, que, não raramente, nos incomodam quando estão por perto?

Hoje resolvi “mergulhar” dialeticamente nessa questão. Impossível não encontrar uma resposta.

Depois de momentos de reflexão profunda me dei conta de que nós, seres humanos, somos tão pequenos…, mas tão pequenos, que nada enxergamos além do que está à altura dos olhos. Como num formigueiro, nascemos, crescemos, trabalhamos, comemos, reproduzimos e morremos, certos de que “fizemos nosso papel”. Fazemos tudo mecanicamente. Devemos satisfação a nossos superiores e as exigimos de nossos subordinados. Até entre as formigas existe essa hierarquia, como em nossa sociedade: peões, soldados, rainha… Tudo envolve uma interação de seus integrantes.

Assim somos nós: nascemos como insetos e morremos como insetos!

O que questiono é o seguinte: por que, sabendo que o formigueiro tem uma vida “sem sentido”, mecânica, e, por sermos de uma sociedade “maior”, nos contentamos em ter a vida de um inseto quando podemos “crescer” e enxergar “nosso formigueiro” de cima?

Conseguimos isso?

Claro!

E é muito simples.

Tudo o que temos a fazer é abrir mão dos defeitos. À medida que transformamos nossa arrogância em humildade, a ganância em filantropia, o ódio em amor, a irritação em paciência, a luxúria em castidade, o egoismo em caridade, crescemos. E, quanto mais ganhamos altura, maior é a visão da pobre colônia em que vivemos.

O problema é que é muito trabalhoso – e a preguiça também é um  defeito que devemos descartar!

A questão continua sendo: – por que não gostamos da solidão?

Para tomar consciência de nossa pobreza de espírito precisamos crescer. Para crescer necessitamos abrir mão dos defeitos. Abrir mão deles, dói! É negar a satisfação, o prazer. E quando estamos “com gente perto” desviamos a atenção dos deveres espirituais. A gente finge que não se lembra ou então mentimos para nós mesmos pensando que temos outras obrigações no formigueiro que não podem ser adiadas, por conveniência.

É por isso que ficar sozinho incomoda, assusta. É como se alguém ou alguma coisa nos lembrasse que temos algo muito importante a fazer por aqui e que está sendo adiado.

A solidão é boa. É amiga. É nossa aliada no crescimento espiritual.

Não há porque temê-la.

Tornemo-nos reclusos vez por outra para ter nova visão do mundo caótico que estamos a construir, como insetos.

Assim perdemos o medo da solidão.

11 Respostas to “solidão”

  1. Karyo Says:

    Muito legal! Congratulations!

  2. Myriam Alice Sisson Says:

    Não há o que temer, às vezes é a melhor companheira.
    Muito bacana o que escreveste.
    bjs.

  3. Lorena Says:

    De fato, a solidão dói!
    O medo da solidão nos afasta de nossa verdade, de nosso “eu” interior, de nossa responsabilidade como ser humano, de nossos questionamentos.
    A solidão me dói! Ainda encontrarei paz na solidão.
    Parabéns pela crônica!

  4. Marcia Says:

    Ah! poeta cronista…
    Eu acho que não existe solidão mais sim
    o solitário, aquele que consegue ficar consigo
    mesmo, virar do avesso e ver a costura mal acabada
    que é o seu interior, passando a ser um solidário……
    bjus………..

  5. Karinne Says:

    É isso aí…
    Disse tudo…
    Há quem diga que a solidão é uma opção de vida…
    grande companheira das transmigrações…rsrs

    Apolíneo, Hagape!

  6. Fábio Silva Santos Says:

    Parabéns por tão sábias palavras ! Concordo plenamente !

  7. Jilberto Says:

    Solidão

    Linda crônica. Está aí um lado frágil de minha pessoa que nunca soube como superá-lo. Tudo é válido para que a possamos espantá-la.

    Um abraço.

  8. Priscila Says:

    Perfeitaa..Analise!!

  9. Jaqueline Robespierre Says:

    Olá, querido Osvaldo! Adorei seu texto, mas prefiro justificar a necessidade de alguém com o pensamento da Rachel de Queiroz: “A Gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado.”. Embora eu tenha consciência de que estar só é uma questão de insatisfação pessoal, pois nunca estaremos só de fato. Haverá sempre um bom livro, uma flor, uma saudade ou um sonho que nos fará companhia quando não existir algum ser humano ao nosso redor. Abraço de Jaqueline Robespierre.

    • osvaldo marques Says:

      Concordo contigo, meu amor, e com a Rachel, mas na crônica me refiro à preocupação, ao medo, de estar só.
      Beijos saudosos!

  10. Edilaine Says:

    Verdadeiras palavras…
    “Sós….condição inicial e final”…falastes tudo!
    Concordo plenamente!!
    Não devemos temer a solidão,ela é a nossa eterna companheira!!

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