gametas celestes

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Lembro-me como se fosse hoje:

domingo ensolarado… nenhuma nuvem no céu, embora ventasse forte. Havíamos comprado “papel de seda” e, com algumas varetas de bambu, meu pai me ajudava a confeccionar uma pipa toda colorida.

Enquanto minha mãe cantarolava na cozinha, meus irmãos tentavam não atrapalhar nosso trabalho, que parecia ser a coisa mais importante do mundo naquele momento. Um trabalho minucioso e paciente, mas que recompensava quando terminado.

Depois de meia hora estava pronta nossa obra de arte! Eram momentos de rara felicidade! O cheiro no ar de manhã de primavera, o murmúrio do vento nas frestas da janela, tudo era muito agradável. Tudo parecia conspirar aquela felicidade. Estávamos ansiosos para empinar nossa pipa.

Fizemos o “cabresto” como manda o figurino para que ela não rodopiasse no ar e depois o arremate, a “rabiola”! Cortamos uma folha de jornal em tiras e as prendemos num fio de “linha dez” que era a mais apropriada para resistir à pressão do vento. Mais alguns minutos e… pronto! Vamos pra rua!

Meu pai parecia o mais criança de todos. Pediu que segurássemos a pipa contra o vento enquanto ele a empinava, e que depois a passaria para nós. Lá fui eu! Caminhei uns vinte passos de costas com ela na ponta dos dedos, até que ele deu a ordem para que a soltasse. Um momento mágico: tudo perfeito!

Enquanto ela subia, me sentia lá no alto, vendo a gente gritar de felicidade, e aos poucos ela foi subindo mais e mais. Já podia me imaginar vendo a rua, e depois os telhados das casas, e depois todo o bairro. Era enebriante.

Após alguns segundos e muito metros de linha, nosso brinquedo parecia menor, e serpenteava enquanto “tenteávamos” – assim chamávamos os movimento que fazíamos com as mãos para orientá-la no alto. Ficamos horas distraídos com nosso singelo divertimento até o momento em que nossa mãe nos chamou para almoçar.

Hoje faço da lembrança um aprendizado. Como perdemos a capacidade de nos deslumbrar! Crescemos e deixamos de sonhar, de ser crianças. Pobres de nós! Vivendo presos a nossos preconceitos, já não vemos a riqueza que há nos pequenos momentos que passamos; nos folguedos infantis.

Sinto uma certa nostalgia quando vejo os pequenos a empinar suas pipas. Cada um com a sua como num festival de gametas a procurar seus destinos no céu; a germinar um passado de que certamente no futuro lembrarão.

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Uma resposta to “gametas celestes”

  1. Maravilhoso! A riqueza de detalhes transporta o leitor numa viagem encantada rumo ao passado . Me senti soltando pipas também. Essa é a função do bom texto, fazer o leitor viajar nas palavras. Muito bom mesmo! Parabéns!

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